Mastigando agendas

14/04/2003 by in category Crônicas tagged as , , , with 0 and 0

Entrei no ônibus mastigando o futuro.

O tempo estava contra, mas o trânsito estava a favor. Nem senti o percurso. Quando levantei para descer do ônibus, encontrei um rosto familiar no corredor. Vacilei por alguns segundos. Podia fingir que eu não era eu, que não estava vendo o que via e que não estava me lembrando do que estava me lembrando. Mas não.

— Oi, tudo bem? — perguntei hesitante ao rapaz.

O rapaz me deu um olhar em branco. Buscou agendas dentro de si e por fim sorriu.

— Você aqui! 

Descemos do ônibus conversando.

— Mudou para Pinheiros? — ele perguntou.
— Como sabe que me mudei?
— Seu irmão me contou.

Entendi que estava se referindo a um amigo em comum. Filho da puta! Se tivesse dito apenas o nome do amigo, a dor era menor. Por que qualificá-lo de irmão? Uma pilha de agendas caiu sobre minha cabeça. Senti vontade de voltar para o ônibus, para casa, para o tênis sujo que usava na juventude.

Trocamos cartões, promessas e outras mentiras urbanas.

Ele foi embora e me deixou mastigando o passado.

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Espalhe a palavra!

Marcelo Ferrari


Nasci ontem. Quando fiz dez anos, completei dezoito. Tenho um chinelo azul com alça vermelha que não serve para poesia. Escrevo o que a inspiração põe e a expiração tira. Não uso heterônimos, sou usado por eles. Só sei ser sendo, dançar dançando, escrever escrevendo e ferrari ferrariando. Minha literatura não é pá pum e pronto! É pá pum escreve. Pá pum lê. Pá pum edita. Pá pum relê. Pá pum reedita. Pá pum rerelê. Pá pum rereedita. Até que pá puta que pari! Nunca estarei ponto! E pronto! Me imagine tocando violão. Sempre. Ininterruptamente.

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