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Idioma do amor

18/04/2003 by in category Crônicas tagged as , with 0 and 0

Quando estavam enfim sós, geralmente nus, conversavam por meio daquele estranho idioma. A língua era criação fonética deles mesmos. Surgiu sabe-se lá quando. Funcionava assim. De repente, um pronunciava: “Ismirifin difi rtifim di esquiri ticim xubicabagi guibi.” E o outro, compreendendo o significado profundo de cada palavra, respondia: “Simimhi himilidogji dojiduim dolim femelacidi.” Quando estavam vestidos o idioma desaparecia. A comunicação se dava através do português de telejornal, com palavras claras e precisas, quase uma conversa de advogados. O estranho idioma só vinha à língua quando faltavam roupas e palavras. E não se prendia em concordância verbal, adjunto adnominal, etc e tal. Mas uma frase se repetia. Ora pronunciada após um olhar, ora rompendo o silêncio. A frase era “sim-sim”. Quando um deles a pronunciava, o outro sentia o impacto imediato. Mas por que “sim-sim” causava impacto se era catedraticamente nada? Questão de fé. Ou loucura. “Sim-Sim” era “Sim-Sim”. Palavra compreendida e consagrada por seu designificado e desconhecimento. Isso bastava. Aliás, transbordava.

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