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Humanidade é lixo

19/04/2003 by in category Crônicas tagged as , , , with 0 and 0

— A humanidade é um lixo! — diz a voz agressiva e convicta.

Olho para trás a fim de reconhecer o autor e tentar entender o motivo.

— A humanidade é um lixo! — ele repete.

Investigo o dono da frase de cima a baixo. Sua pele é encardida. Usa um bigode de bangue-bangue totalmente fora do horário nobre. Veste um pijama estampado de sujeira. Calça as mesmas havaianas das top models, mas desfila sem nenhum charme.

— A humanidade é um lixo! — ele diz novamente.

O sujeito sujo está ao lado de um camelô que vende café da manhã por um real. Bolo e chocolate quente. Não está pedindo comida. Está olhando para uma mulher que parou ali.

— A humanidade é um lixo! — ele insiste.

A mulher não faz cara feia, nem o recrimina. Frustrado, ele direciona sua afirmação para o camelô.

— A humanidade é um lixo e eu tenho pavor de mulher!

O camelô faz cara de poisé. O sujeito sujo volta a falar para mulher.

— A humanidade é um lixo e eu tenho pavor de mulher!

É o refrão de uma ferida aberta.

Talvez a mulher sinta a mesma dor. Talvez o que está saindo da ferida dele entra na ferida dela como uma transfusão de traumas, como um abraço de duas pessoas sem braços.

Mas por que o camelô não dá logo um fim no sujeito que está espantando a freguesia? Por que a mulher não vai embora? Por que a humanidade é um lixo? Por que parte de mim concorda? Por que outra parte discorda? E pior! Por que o sinal abriu e eu continuo assistindo a cena?

— A humanidade é um lixo! — ele persiste.

A mulher esfrega as pálpebras molhadas de lágrimas.

Um senhor se aproxima caloroso.

Quem consegue resistir ao choro de uma mulher?

O camelô retira um guardanapo de papel do saquinho e entrega para mulher enxugar as lágrimas.

O sujeito sujo se cala.

Talvez esteja com vontade de dizer algo, qualquer coisa, além daquela frase que já não faz mais sentido. Só que ele não sabe falar, só sabe gemer.

Então, ele se aproxima do cesto de lixo, pega o guardanapo molhado de lágrimas que a mulher jogou ali e põe na boca, feito hóstia.

A mulher abre um sorriso na contramão da rotina, passa os dedos úmidos na cabeça encardida do sujeito e desaparece dentro de um ônibus lotado.

A humanidade é um luxo! Penso eu.

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