Funk do calvário

21/04/2003 by in category Crônicas tagged as , , , with 0 and 0

Ligo o MP3 e viajo na ideia de que a vida é ônibus. Uns sobem, outros descem. Fica cheio, vazio, meio-vazio, meio-cheio. Tem japonês, loiro, negro. Cada ponto é final e partida. Tem uma dona gorda na minha frente. Atrás dela, uma criança de colo. Um rapaz sujo de graxa está de pé, ao lado de um senhor de terno. Uma estudante, sentada, segura uma pilha de mochilas para os amigos. Os rostos formam um mosaico de almas. Raimundos e fundos, Veras e esperas, Ritas e ritos, Dolores e dores, Celestes e Socorros. Marias Aparecidas e desaparecidas.

De repente, um calor clandestino, misto de cumplicidade e ternura, me incendeia o peito. Sinto que cada pessoa ali tem um pulmão único, mas ao mesmo tempo, costura seu alento com o bafo quente que sai de cada outra boca. As faces não são apenas frutos de si mesmas, são espelhos da diversidade. Cada angústia, debruçada sobre seu próprio umbigo, remoendo sua própria entranha, faz a mesma pergunta: “Como beber dessa bebida amarga, tragar a dor engolir a labuta?”

Somos cristo no coletivo. Sentados ou em pé, estamos todos de joelhos. De braços para cima, pedimos misericórdia. De que nos vale ser filho da santa? De cabeça baixa, imploramos por um táxi. Melhor seria ser filho da outra. Mas apoiados uns nos outros reinventamos o funk do calvário. Afasta de mim esse táxi. Tá consumado, tá tudo consumado! 

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