Eu beijei o pé do pai de amor

22/04/2003 by in category Crônicas tagged as , , , with 0 and 0

No oco da minha cabeça tem um Google tradutor. No pulso do meu coração tem um demônio. Quando os dois se juntam contra mim, fico completamente impotente. O Google tradutor transforma tudo que cai na minha rede em beleza e o demônio me obriga a dançar.

Foi mais ou menos assim que começou aquele Gayatri.

Fiquei curioso de ver como ele flexionava o verbo humano. Fui de bicicleta. O templo era uma casa no bairro da Aclimação. Quando cheguei não tinha mais espaço nem para os sapatos empilhados na porta. Devagar e sempre consegui um lugar na escada. A banda mais hare krishna da cidade emendava um mantra no outro. Havia tambores, violões e uma cabaça com dentes de aço.

De repente, a musica parou. Um homem barbudo, vestido de branco, começou a descer a escada. Todos juntaram as mãos em posição de oração. Quando o homem chegou no palco alaranjado — aos olhos da platéia — já não havia mais homem ali.

Foi o início de uma psicanálise em ritmo de bossa nova. Duas palavras, três silêncios, quatro palavras, pausa. Perguntas e respostas. Mas contrariando a adoração coletiva, deus era mais humano do que nós. Ninguém percebia isso porque a delicadeza do deusólogo em apertar humanos, essa sim, era sobrenatural.

Quando dei por mim, o Google tradutor já estava online. A banda voltou a tocar e uma fila de habitantes do Tietê seguia rumo ao Ganges. “Só existe um, mas é preciso dois para dançar um tango”, foram as palavras ditas pelo demônio, enquanto beijava o pé do pai de amor.

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