Estrela da cena

22/04/2003 by in category Crônicas tagged as , , , with 0 and 0

Saio para ver a luz da tarde. Ela me oferece coração de boi. Agradeço a gentileza e recuso, não pelo gosto, mas pelos fiapos que, prevejo, ficarão entre os dentes. Acendo o cedê-player. Ela me chama. Faço leitura labial: “Você está surdo?”. Peço que desamarre o lenço suado que segura os cabelos cinzas e meto cazuza em seus ouvidos. Ela sorri quase virgem, depois cruza o espaço entre a cozinha e o futuro uma duzia de seis. Abro uma garrafa de Chico Buarque e fico aguardando o desfecho da cena. Ela liga a televisão na missa, lê a receita com a ponta dos dedos e joga farinha na bacia azul. O cachorro escarlate em volta. O que será que me dá? Ela arremessa a massa redonda sobre a mesa. Ah! Se meu cavalo falasse inglês. Entro na cozinha para beijar a estrela da cena. Ela está de olhos fechados, com as mãos em oferenda, repetindo as palavras do padre eletrônico. O pão nosso de cada dia cilindrado sobre a mesa. Preciso não dormir. Amém.

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Espalhe a palavra!

Marcelo Ferrari


Nasci ontem. Quando fiz dez anos, completei dezoito. Tenho um chinelo azul com alça vermelha que não serve para poesia. Escrevo o que a inspiração põe e a expiração tira. Não uso heterônimos, sou usado por eles. Só sei ser sendo, dançar dançando, escrever escrevendo e ferrari ferrariando. Minha literatura não é pá pum e pronto! É pá pum escreve. Pá pum lê. Pá pum edita. Pá pum relê. Pá pum reedita. Pá pum rerelê. Pá pum rereedita. Até que pá puta que pari! Nunca estarei ponto! E pronto! Me imagine tocando violão. Sempre. Ininterruptamente.

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