Deus Zoer

23/04/2003 by in category Contos tagged as , , , with 0 and 0

Era uma vez Piá, uma águia cega que não saia do ninho. Piá sabia voar, mas tinha medo de trombar com as arvores. Então, certo dia, Piá ouvi uma voz dizendo que o dragão Roger estava a caminho e iria incendiar seu ninho. Piá não sabia o que fazer. Ficar ali e morrer queimada ou arriscar um vôo e se salvar? Piá pensou que se voasse bem alto e nunca aterrissasse não correria o risco de trombar com nenhuma árvore. Então, Piá se atirou na imensidão azul. Assim que Piá começou a voar, sua visão retornou mais forte do que nunca. É por isto que os descendentes de Piá enxergam longe e nunca colocam os pés no chão.

Era uma vez Roger, um dragão covarde que vivia numa caverna. Quando Roger ouvia qualquer barulho, disparava um grito. O grito de Roger era tão poderoso que labaredas de fogo saiam de sua boca. Então, certo dia, Roger ouviu uma voz dizendo que ele devia sair da caverna, encontrar a montanha mais alta do mundo, subir no pico da montanha, e gritar — com seu grito mais forte — para uma águia que lá morava: “voe!”. Ao ver uma águia cega levantando vôo, Roger livrou-se da covardia para sempre. É por isto que os descendentes de Roger sempre usam a força de seus imperativos para criar coragem.

Era uma vez Eguiberto, um lagarto correto e reto. Eguiberto tinha vértebras, mais de duzentas, mas não sabia como usá-las. Para entrar em buracos e fazer curvas, Eguiberto precisava executar dezenas de manobras como as tartarugas. Então, certo dia, Eguiberto ouviu uma voz dizendo que devia andar pela mata até encontrar um bambuzal. Quando encontrasse, devia ficar observando o movimento dos bambus durante uma tempestade. Eguiberto fez isso e descobriu que se curvar conforme as circunstâncias não era sinal de fraqueza. É por isto que os descendentes de Eguiberto sabem que o reto depende da curva.

Era uma vez Dunga, um macaco sem rabo. Certo dia, Dunga ouviu uma voz lhe dizendo que devia se inscrever na corrida de pular de galho em galho. “Como, se não tenho rabo?”, Dunga se perguntou. A mesma voz lhe disse que devia se alimentar com uma escama do peixe Sashi e confiar no seu instinto. Dunga fez isso e improvisando a cada pulo, venceu a corrida usando apenas as mãos. É por isto que os descendentes de Dunga sabem que a inteligência não está no que se tem, mas no que se é capaz de fazer com o que se tem.

Era uma vez Charlot, uma papa-léguas com unha encravada. Charlot vivia sentada. Não consegui colocar os pés no chão de tanta dor que sentia no dedão do pé. Então, certo dia, Charlot ouviu uma voz lhe dizendo que devia ir até o rio, pegar uma escama do peixe Sashi e levar até o macaco Dunga. Se ela fosse bem rápido, não sentiria dor. Charlot concluiu a tarefa sem sentir dor. É por isto que os descendentes de Charlot estão sempre correndo para lá e para cá.

Era uma vez Sashi, um peixe de sangue quente. Certo dia, Sashi ouviu uma voz lhe dizendo que devia subir o rio vadi seguindo a corrente de água quente e encontraria uma papa-léguas na cabeceira. Sashi devia dar ao papa-legues uma de suas escamas. Sashi subiu o riu e encontrou com o papa-léguas. Arrancou uma de suas escamas e entregou para ele. É por isto que os descendentes de Sashi sabem controlar tão bem o quente e o frio e subir mesmo contra a correnteza.

Era uma vez Toin, um sapo que só tinha uma moeda e precisava alimentar uma grande família. Certo dia, Toin ouviu uma voz dizendo que devia gastar sua única moeda, indo até a padaria, comprando pão e voltando pelo mesmo caminho. Toin fez isso e encontrou outra moeda no caminho de volta. É por isto que os descendentes de Toin nunca são avarentos, pois sabem que tem uma moeda na ida e outra na volta.

Era uma vez Zoer, um deus que sonhou que era um conto. Quando acordou se viu dentro de uma gigantesca floresta, junto com sapos, peixes, papa-léguas, macacos, lagartos, dragões, águias, etc. Desde então ele não sabe se está sonhando os animais e a floresta ou se os animais e a floresta estão sonhando ele.

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