Copo de requeijão

24/04/2003 by in category Crônicas tagged as , , , , with 0 and 0

Nove tiros. Ninguém quer sentar do lado da mulher melancia. A menina aperta online. Liga a webcan. Também hesito. A bundadela invadiu duas poltronas. São três adolescentes no youtube. “Hoje nós vamos contar uma coisa que todos nós fazemos, mas ninguém tem coragem de admitir”. A ambulância chega no local. O rapaz morto ainda está vivo. Me sendo do lado da mulher melancia. Sorrio. Ela não move um milímetro da carroceria. As adolescentes fazem suspense. Repetem o assunto do programa. “Hoje nós vamos contar uma coisa que todos nós fazemos, mas ninguém tem coragem de admitir”. O rapaz baleado não sabe rezar, nem morrer. Ele segura na mão da enfermeira dentro da ambulância. O ônibus entra no túnel. A mulher melancia fecha os olhos e sonha com a dieta de pepinos que irá transformar sua bunda numa azeitona. A enfermeira puxa a mão e explica para o rapaz baleado: “Sou paga para ser enfermeira e não para ser humana”. As três adolescentes admitem, envergonhadíssimas, que bebem água em copo de requeijão. Eu queria ter segurado na mão da mulher melancia e dito que sou pago para ser humano e não para ser enfermeiro. Mas vou contar uma coisa que todos nós fazemos, mas ninguém tem coragem de admitir: eu bebo água em copo de requeijão.

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Espalhe a palavra!

Marcelo Ferrari


Nasci ontem. Quando fiz dez anos, completei dezoito. Tenho um chinelo azul com alça vermelha que não serve para poesia. Escrevo o que a inspiração põe e a expiração tira. Não uso heterônimos, sou usado por eles. Só sei ser sendo, dançar dançando, escrever escrevendo e ferrari ferrariando. Minha literatura não é pá pum e pronto! É pá pum escreve. Pá pum lê. Pá pum edita. Pá pum relê. Pá pum reedita. Pá pum rerelê. Pá pum rereedita. Até que pá puta que pari! Nunca estarei ponto! E pronto! Me imagine tocando violão. Sempre. Ininterruptamente.

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