Confessionário de Dorian Gray

24/04/2003 by in category Crônicas tagged as , , , , with 0 and 0

Ana havia se tornado uma devedora compulsiva e resolveu buscar ajuda num grupo de anônimos. Insegura, pediu que eu fosse com ela na primeira reunião. O encontro seria no sábado, numa igreja no centro de São Paulo. Aceitei, pensando em ajudá-la. Ledo engano! Para ela foi apenas um banho de sal grosso, para mim foi tratamento de choque, 220 volts.

Sentados em cadeiras plásticas, todos os criminosos ali se sentiam muito à vontade para contar seus crimes, revelar seus segredos mais velados, expor seus machucados mais íntimos. Minha alma de Pinóquio tremia. 

Gostei tanto daquele confessionário de Dorian Gray que ir às reuniões se tornou meu programa favorito de sábado. Enquanto Ana refletia sobre sua compulsão em gastar uma fortuna que não tinha, eu aprendia sobre a inutilidade de gritar para pedir silêncio.

Descobri também que franqueza brota mais fácil frente a incondicionalidade dos ouvidos do ouvinte. Quando uma pessoa dava seu testemunho, todos ouviam, sem resistência, sem confronto, sem ruído. Ninguém metia o dedo no retrato do outro. E quando acabava a exposição, só havia uma forma de pagar a entrada na alma alheia.

“Grato por compartilhar”, todos diziam em uníssono.

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Espalhe a palavra!

Marcelo Ferrari


Nasci ontem. Quando fiz dez anos, completei dezoito. Tenho um chinelo azul com alça vermelha que não serve para poesia. Escrevo o que a inspiração põe e a expiração tira. Não uso heterônimos, sou usado por eles. Só sei ser sendo, dançar dançando, escrever escrevendo e ferrari ferrariando. Minha literatura não é pá pum e pronto! É pá pum escreve. Pá pum lê. Pá pum edita. Pá pum relê. Pá pum reedita. Pá pum rerelê. Pá pum rereedita. Até que pá puta que pari! Nunca estarei ponto! E pronto! Me imagine tocando violão. Sempre. Ininterruptamente.

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