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Colírio colorido

24/04/2003 by in category Contos tagged as , , , with 0 and 0

Luzes da china piscando na árvore de natal. 

Abre câmera, plano geral. 

Duas aeromoças dividem os passageiros da clínica em alas. A aeromoça loira queria ser aeromoça. Sonhava casar com o piloto da rota São Paulo-Paris. Subir com ele na Torre Eiffel. Estudou. Passou no concurso. Mas foi barrada no exame médico por astigmatismo. Depois de dois meses de choros e olheiras, veio fazer exame na clínica e descobriu que aquele vizinho que ela encontrava no elevador era um dos médicos. Ela contou sua decepção enquanto o vizinho examinava suas olheiras. Ele foi compreensivo e pediu para a moça lhe enviar um currículo por e-mail. Ela olhou para mão dele, como costumava fazer no elevador, e reviu a aliança no dedo. Quem sabe ele se separa, ela pensou. Mandou o currículo. Não é aeromoça, mas usa uniforme azul-marinho e as cadeiras da clínica são divididas em alas.

Fecha câmera, plano americano.

Tem café sem açúcar, café com açúcar, chá sem açúcar, chá com açúcar, água, bolacha com recheio de morango e biscoito salgado de polvilho.

Abro a tampa e retiro todos os biscoitos de polvilho de dentro do pote. Coloco-os sobre a mesa. Algumas pessoas notam meu comportamento e começam a cutucar umas as outras. Quando termino de retirar todos os biscoitos, viro o pote de ponta-cabeça e despejo todo o farelo de biscoito de polvilho dentro do copo descartável. Cai um pouco fora, então, colocando o copo na borda da mesa, e usando a mão, resgato o desperdício. Coloco os biscoitos de volta no pote e volto a me sentar como se nada tivesse acontecido.

A lei de newton afirma que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço, mas não diz nada sobre o tempo. É aí que as secretárias deitam e rolam. Cada retângulo de horário na agenda, que devia conter apenas um nome, contém os pacientes de uma semana inteira. E haja paciência dentro dos pacientes. O dito-cujo chega descabelado, sem café da manhã e só é atendido depois da janta. Imagina o que acontece. O médico tem que virar domador. O que entra na sua sala é um leão faminto e irritado.

Plano aberto.

Ela já cruzou e descruzou as pernas umas duzentas e cinqüenta e nove milhões de vezes. Eu sei porque eu contei. Eu contei porque estava olhando. Eu estava olhando porque eram as únicas pernas sem varizes no recinto. Numa clínica de olhos os pacientes são crianças ou velhos. Ela era meio-termo. Era adulta. Criança também não tem varizes, mas criança não conta. Continuando. Não eram pernas roliças como as pernas das dançarinas do tchan, eram pernas magras de girafa que dançam dentro de um vestido tropical.

Blablablá, blebleblé, bliblibli, bloblobló, blublublu…

A moça das pernas fala pelos cotovelos. Reclama da demora. Ela fala alto e com dicção p.e.r.f.e.i.t.a para garantir que a secretária também escute. É sempre assim… desrespeito, desrespeito, desrespeito. Depois de constatar que foi ouvida, pula de assunto. Fala da feira, fala das unhas e por fim fala de pedagogia infantil. Diz que pedagogia é chinelo.

Plano girafa.

Me levanto e vou até a mulher. Tiro os cabelos de cima da sua testa. Pego uma caneta bic vermelha e escrevo em sua testa: mulher do mal.

Plano onde cabem três pessoas dentro.

Uma senhora está falando da catarata, contando do pós-operatório, etc. Chega um homem barrigudo.

Close na barriga. Depois volta para o plano onde cabem três pessoas dentro.

O homem pergunta para a mulher se ela está vendo sua barriga.

Outro close na barriga. Volta novamente para o plano onde cabem três pessoas dentro.

A mulher diz que sim. Ele responde: Então você já está enxergando bem.

Pessoas fora do plano onde cabem três pessoas dentro começam a rir.

Olho para barriga. É uma barriga de vovô, não é de papai noel. Ele se entusiasma e emenda a piada do coelho que não usa óculos. É propícia para o ambiente, mas é infame.

Close na enfermeira pingando colírio colorido nos olhos da dona maria de fátima tavares. A gota cai, ela fecha os olhos, e quanto abre, ela não é mais ela. Ela sou eu. Eu não sou mais eu. Sou ela. Trocamos de corpo e estamos olhando um para o outro. Ela-eu está sentada de pernas cruzadas e com um punhado de papéis na mão. Eu-ela estou sentado em posição de parto, pernas abertas e ombros para trás. Ela-eu dá um sorriso em sinal de reconhecimento. Eu-ela pisco demorado. Quanto abro os olhos, ela não é mais eu. Ela é ela. Eu sou eu.

Doutor tobias, telefone para o senhor! – a voz aguda anuncia.

Um médico com costeletas de elvis presley atravessa o corredor e vem atender o telefone. Dr.tobias é um músico de cartão, provavelmente um baixista. Músico de cartão é um músico que pega mais no cartão de crédito do que no instrumento que toca. Por exemplo, um guitarrista de cartão é aquele cara que acabou de comprar uma guitarra fender modelo les paul e já está de olho em uma yamaha modelo yoko ono. Experimente convidar um guitarrista de cartão para um ensaio no domingo. Ele vai dizer que não pode porque sua guitarra está no luthier fulano de tal. É claro que o fulano de tal é um dos melhores guitarristas cidade e, nada mais nada menos, que seu professor. O que ele não vai contar é que das quatro aulas por meses, três ele falta, e uma ele chega atrasado. Mas paga em dia para não perder a vaga, nem a amizade sincera do fulano de tal.

Pan de 180 graus até parar no garoto com tampão no olho. Dá para sentir seu desconforto.

Chuvisco cinza na tela.

O garoto é daltônico. Seu sistema óptico troca o verde pelo vermelho e vice-versa.

Pause.

Pego a caneta bic vermelha e faço dois riscos verdes em seu rosto, de forma que o tampão vire um tapa-olho de pirata.

Play.

A mulher do mal reclama do chão molhado. Ela diz em voz alta e dicção p.e.r.f.e.i.t.a que se ninguém fizer nada algum velhinho vai acabar caindo e quebrando a perna. Depois de dois minutos sem providências, a mulher do mal decide enxugar o chão com o próprio vestido e guardanapos de papel que carrega dentro da bolsa. Porém, assim que se levanta para fazer isso, sente vontade de ir ao banheiro e muda o percurso. Passados dois minutos, uma faxineira enxuga a poça com um esfregão. Só que outra pessoa deixa um copo com água cair no mesmo local. A mulher do mal volta do banheiro e vê que a poça continua ali. Não faz nada. Desvia e volta a se sentar.

Like a virgin touched for the very first time!

A secretária atende o celular. Não dá para ouvir os sussurros, mas tenho meus métodos.

Ligar legenda.

Oieeeê! Tava pensando em você! Onde é que meu ursinho está?
Estou no serviço ué, tá foda aqui hoje!
Ursinho, a ursinha tá com saudade!
Já vou, porra!
Ursinho!
É que estão me chamando aqui. Preciso ir. Depois te ligo.
Ursinho promete que vai ligar para ursinha?
Precisso ir, tá foda aqui.
Eu te amo, ursinho!
Eu…

Desligar legenda.

Uma menina sorridente entra de cavalinho nos ombros do seu pai.

Pause.

Pego minha caneta bic e escrevo na testa do pai “homem do bem”. Faço uma estrela de seis pontas na testa da menina.

Play.

Com muito esmero o homem do bem retira a estrela do céu e a coloca sentada no chão. Ela trouxe uma caixa de canetinhas coloridas debaixo do braço, mas está faltando papel. O pai tenta ajudar. Em cima da mesa tem um display cheio de papéis de propaganda da clínica. Ele estica o braço, pega um papel e entrega para estrela. Ela começa a rabiscar. Amarelo para o logotipo, azul para o mapa do endereço, e assim por diante.

Plano geral.

A sala está ficando vazia.

Close in no homem de bigode grisalho.

Veja só – ele diz ao amigo – eu pago em torno de cento e cinqüenta reais por mês ao plano de saúde e já fazem uns vinte anos. Se você fizer as contas dá mais ou menos mil e oitocentos reais por ano. Em vinte anos, são trinta e seis mil reais. Dá um bom dinheiro, você não acha?

O amigo balança a cabeça para cima e pra baixo.

É por isto que não preciso pagar as lentes. Se cada uma custa trezentos e cinqüenta reais, eu já paguei essas lentes muitas vezes! Quanto é que dá trinta e seis mil dividido por setecentos?

O amigo balança a cabeça para direita e para esquerda.

Estrela faz dois riscos no papel dividindo o universo em céu, terra e inferno. Pego minha caneta bic e faço mais dois riscos na transversal dividindo o céu em céu, terra e inferno; dividindo a terra em terra, céu e inferno; e dividindo o inferno em inferno, céu e terra. Ficam nove quadrados. Estrela faz uma bola dentro de um deles. Eu faço um xis. Ela faz outra bola. Eu faço outro xis. Ela faz outra bola. Eu faço outro xis. E assim povoamos todo o universo.

A menina modelo está sentada de pernas cruzadas, cabelos escovados e brincos combinando com a cor do vestido. A menina tem apenas oito anos de idade, mas a mãe já fez sua inscrição para o concurso Miss Universo 2020. Desde então a mãe perdeu a menina de vista e só enxerga um fantasma de dezoito anos com coroa de Miss Universo na cabeça.

– Miss Universo não pode comer chocolates – a mãe diz ao fantasma.

– Mãe! Eu tô aqui! Atrás do fantasma! Tá me vendo? – diz a menina.

A mãe escuta uma voz estranha, mas não consegue enxergar de onde vem.

A menina deixa a Miss Universo sentada do lado da mãe e vai brincar com a estrela.

Pego meu copo de farelo de biscoito de polvilho e viro em cima da cabeça das duas meninas, feito chuva.

Entra música do toquinho: Vamos todos juntos numa linda passarela de uma aquarela que um dia enfim…

Fade out.

Fade in na telefonista entediada, olhando para as cutículas.

Travelling até o moço de sapatênis, shorts de futebol e camisa do corinthians. Será que ele é jogador? Que parece, parece. Está sentado como se estivesse dando um carrinho no centroavante. Chego perto e pergunto se ele acha que vai chover hoje. Ele responde que ainda não se conformou com a derrota da seleção de 1982, com sócrates, júnior, falcão e zico. Pergunto qual é sua profissão. Ele me diz que ainda tem uma caixa de rojões que comprou para comemorar o título de campeão. De lá pra cá, a seleção brasileira já foi campeã duas vezes, mas o futebol apresentado não fez valer a pena nem riscar um fósforo.

Estrela extrapola o papel e começa a rabiscar o chão da clínica. A mulher do mal pára do seu lado.

– Sai daí! Sai daí! Vai embora! Eu grito enquanto atiro mamonas com meu estilingue.

Mas a mulher do mal tem um escudo. Ela pega a estrela pelo braço e a coloca sentada do lado do homem do bem. Depois a mulher do mal senta, deixando a estrela no meio. Estrela se curva para frente. Para o meu espanto, vejo a mulher do mal fazendo um cafuné delicioso no homem do bem, e depois beijando-o. O homem do bem é marido da mulher do mal.

– Senhor doutor visconde de sabugosa! – a enfermeira chama.

Close na enfermeira pingando colírio colorido nos meus olhos. A gota cai. Eu fecho os olhos e quando abro percebo que estrela tem um rosto misturado, metade do mal e metade do bem. Estrela pega uma canetinha azul e pinta um dos triângulos em sua testa de vermelho, depois pega a canetinha vermelha e pinta o outro triângulo de azul. As seis pontas em sua testa começam a girar feito um chakra.

– Senhor doutor marquês de rabicó! – a enfermeira chama.

Estrela pega a caneta bic da minha mão e desenha algo na minha testa. Fico curioso para saber o que é, mas não tem espelho por perto. A mulher do mal sorri bolo de suspiro para o homem do bem. Faz cafuné em sua orelha. Incrível como os dois parecem apaixonados! Eu fecho os olhos e esfrego-os, quando reabro os olhos, a mulher do mal continua com cara de julieta apaixonada.

Senhor doutor dom quixote! – a enfermeira chama.

Plano médio.

Tem uma mulher torta no lugar certo. Certas pessoas são como a torre de pisa, só encontram equilíbrio fora do lugar. É o caso da mulher torta, sutiã de um lado, peitos do outro e a corcunda no meio, em perfeita harmonia.

Close nas formigas picando minha bunda. Me levanto e vou até o banheiro olhar no espelho e ver o que estrela desenhou em minha testa. Viro a maçaneta apressado, mas a porta não abre, está trancada. Tiro um molho de chaves do bolso e vou testando uma por uma. São chaves que fui adquirindo com os anos. São formas pré-prontas de abrir e fechar as situações. Nenhuma funciona. Olho para mulher do mal. Ela aponta para sua orelha e depois aponta para minha. Levanto minha mão até minha orelha e encontro a caneta bic. Será? Enfio a caneta na fechadura e a porta se abre.

Fade out. Fade in.

Coração desenhado na testa de uma pessoa se olhando no espelho. O que com será isto ela dizer quis que? Será que isto ela com o que dizer quis? O quis que dizer será isto que ela com? Dizer o que será que isto quis ela? Ela com o quis será dizer isto que? Isto que ela será que quis com dizer?

Saio do banheiro e vou procurar a estrela. Ela está montada de cavalinho no ombro do pai, saindo da clínica. Procuro seu desenho e vejo que está com a miss universo 2020. Me aproximo e noto que os riscos que dividiam o desenho em céu, terra e inferno estão apagados.

Slooooooooooooooow moooooootion na miss universo 2020 desfilando pela clínica até uma caixa de acrílico em cima da mesa da recepção. É uma caixa de sugestões. Ela dobra o desenho e o coloca na caixa. Começo a chorar, mas finjo que é por causa do colírio.

Explodem rojões da copa de 1982.

MIF

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