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Casal maior da constelação

24/04/2003 by in category Crônicas tagged as , , with 0 and 0

Tenho uma amiga, terapeuta de constelação familiar, que parece um disco riscado de tanto que repete a mesma frase: “Sejam gratos a suas mães, pois foram elas que lhes deram a vida”. Desconsiderando a parte sobre o que é vida, e também a suposta doação, o problema não é que as mães nos deram a vida, o problema é que elas não nos deixam esquecer disso. Essa chantagem maternal, além de ser um saco, torna impossível qualquer relacionamento saudável. A mãe grita truco e joga o sete copas. Como não se sentir acuado? Para um filho escapar de um sete copas, só resta uma opção, retrucar com o zap: “Eu não pedi para nascer”.

É maldade jogar o zap? Não. É pegar pesado? Sim! Mas quando a regra do jogo é o empirismo, que outra opção um filho tem para não ter que lavar a louça e arrumar a própria cama pelo resto de sua vida. Aliás, pelo resto de uma vida, que por mais que ele pague, jamais será sua.

Eu já usei o zap. Sob pressão e me sentindo mal por retrucar a própria mãe, disse a frase de paus. Foi um choque. Toda mãe fica chocada. “Como ousa!”, elas pensam, mas sabem do impasse. A frase, “Eu te dei a vida”, versus a frase, “Eu não pedi para nascer”, são como aquela história do copo meio cheio e meio vazio, ambas afirmações estão corretas, é só questão de ponto de vista. Então, as mães sabem que os filhos tem metade da verdade, elas apenas ignoram o que não lhes interessam.

Dói para um filho dizer para sua mãe que ele não pediu para nascer. Os filhos também pensam: “Isso vai doer mais em mim”. Mas é preciso dizer, pelo menos uma vez na vida, e não como chantagem, mas como bisturi. O cordão umbilical físico é cortado pelo médico, o cordão umbilical psicológico deve ser cortado com as próprias mãos e com a própria consciência. O relacionamento mãe e filho não piora por isso, melhora. Aquela parte do copo que estava sendo ignorada, não tem mais como ficar invisível.

Relacionamento mãe e filho não é um jogo fácil, pois sete copos e zap é casal maior dividido entre os dois jogadores. E enquanto esse relacionamento é um jogo de ganha-perde, mesmo ganhando, nenhum dos dois jogadores ganha com isso. Eu joguei o zap uma vez para cortar o cordão umbilical psicológico, mas desisti do relacionamento ganha-perde. Passei a jogar ganha-ganha. É essa opção que me possibilita ser um indivíduo e ainda assim ter uma mãe para me dar colo.

[Empirismo off] [Inbox on]

Mãe, eu pedi para nascer e você topou abrir a porta para minha vi(n)da.

Não empatamos no jogo, ganhamos um ao outro.

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