Cara que risca os fósforos

24/04/2003 by in category Poemas, Vídeos tagged as , , , with 0 and 0

Desde que me entendo por vela
estou procurando o cara que risca os fósforos.
Eis o fogo de minha angustia
fogo que me consome, dia após dia.
Dizem que minha busca é benéfica
aos que me rodeiam
que rega luz e calor no ambiente
que me queimo por isto. 
Foda-se a luz! Foda-se o ambiente!
Fodam-se os que amam e os que odeiam minha combustão!
Não me queimo por ninguém.
Me queimo por mim mesmo.
Me queimo de desejo sem remédio.
Ardo na procura do cara que risca os fósforos.
Ele escapa de mim feito areia
em uma ampulheta de grãos de fogo.
Uma ampulheta que me leva
que me larva
que me livra
mas que não me dá a medida.
Qual o tamanho do cara que risca os fósforos.
Talvez amanhã. Sempre amanhã.
Nunca. Sempre.
Quando vou encontrar o cara que risca os fósforos.  
No meu centro tem um umbigo de pano.
Meu mundo começa e termina nele.
Antes dele, tudo, depois dele, nada.
Será que o cara que risca os fósforos
está depois do meu umbigo?
O que será que será?
Efeito de parafina que não me sacia.
Me lembro de muitos dias de fogo.
Não sei quanto tempo.
Não sei até quando.
“Tudo agora mesmo pode estar por um segundo”
canta a vela preta.
Dizem que só quem sabe o destino do velório
é o cara que risca os fósforos.
Inferno é saber apenas por não saber.
Peço que apareça com seus fósforos, ou sem eles.
Fogo mundo! Fogo pião!
Não quero perdão
que nem dez mandamentos vão conciliar.
Não quero ficar de joelhos neste altar
velando o corpo de um filho
que prometeu voltar sem corpo.
Não me conformo com a forma.
Todos os santos de barro e imaginários
estão sendo consumidos pela mesma pergunta
que me consome agora e sempre.
Cadê o cara que risca os fósforos?
Desde que me entendo por vela
estou procurando o cara que risca os fósforos.
Porque será?
Para onde vai a vela quando a vela acaba?
Tenho cá para mim
que agora sim
me foi enfim revelado.
Mentira!

Relacionados