Caminhe homem

24/04/2003 by in category Imperativos, Poemas, Vídeos tagged as , , , , with 0 and 0

Caminhe, homem. 
Assim como contam seus irmãos de pés cascudos.
Assim como sonham seus irmãos de pés de seda.
Caminhe ereto, 
com a sombra amarrada aos calcanhares,
com olhos de girassol,
com o couro desgastando feito sabão 
seguindo a regra três: 
onde o menos vale mais.

Caminhe, homem. 
Lábios calados em punho,
corpo cajado em prumo,
passo a passo,
empurrando o mundo para trás.

Caminhe, homem. 
Não porque acredita ser necessário 
chegar ao final da reta, 
mas porque é inevitável 
curvar-se ao próprio destino.

Caminhe, homem. 
São mais de mil e oitocentas colinas, 
novecentos dragões de lama, 
sete demônios de resistência 
e todos vencidos
pela solidariedade de duas pernas 
que servem de ombro
uma à outra.

Caminhe, homem. 
Entregue-se à dança dos bambus 
e eles dobrarão o medo para você.
Ande calmo entre as vacas 
e elas ruminarão suas angústias.
Solte seus cabelos brancos 
e o vento lhe responderá 
como responde às árvores.
Beba suas magoas, 
gole após gole,
que num ato de alívio,
elas se juntarão à enxurrada, 
rumo ao rio, rumo ao mar.

Caminhe, homem. 
E quando cair, levante-se.
E quando levantar-se,
siga até cair de novo.
E quando estiver no chão,
não reclame da profundidade da sorte,
nem da largura do azar 
antes do próximo passo.

Caminhe, homem. 
Ouça os lírios do campo.
Plante um livro.
Leia uma árvore. 
O apito do tem trem gosto de amora. 
Não olhe pela nuca. 
O caminho está por todos os lados 
e todos levam a Roma.

Caminhe, homem. 
Carros andam mais rápido do que você.
Cavalos andam mais rápido do que você.
Cachorros andam mais rápido do que você.
Tartarugas com câimbra
andam mais rápido do que você.
Mas você não pode andar mais rápido do que você.
Nem pode ser mais do que é. 
Você é uma criança jurada de morte pelo tempo,
saboreie tanto a fome como a refeição.
Mais vale manteiga no pão 
do que sebo nas canelas.

Muitas vezes o caminho será uma pedra no sapato, 
uma carga impossível de carregar,
uma montanha intransponível. 
Caminhe, homem.
Que em algum momento do caminho,
seu coração será tocado 
pela mesma força que dá peso à carga,
altura à montanha 
e dureza à pedra. 
Caminhe para compreender 
que sentar só faz sentido 
quando se está andando.
E andar só faz sentido
quando se está sentado.

Caminhe, homem. 
E quando estiver com fome, coma.
E quando estiver com sede, beba.
E quando tiver forças, ande.
E quando não tiver mais, pare. 
Não tenha medo de ser fraco, 
nem orgulho de ser forte,
apenas caminhe,
com pés de adulto,
ânimo de criança 
e sabedoria de ancião.

Caminhe, homem. 
Porque o caminho é seu melhor amigo.
Porque o caminho só existe para lhe servir.
Porque caminhar é seu caminho,
seu destino de homem.

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Marcelo Ferrari


Nasci ontem. Quando fiz dez anos, completei dezoito. Tenho um chinelo azul com alça vermelha que não serve para poesia. Escrevo o que a inspiração põe e a expiração tira. Não uso heterônimos, sou usado por eles. Só sei ser sendo, dançar dançando, escrever escrevendo e ferrari ferrariando. Minha literatura não é pá pum e pronto! É pá pum escreve. Pá pum lê. Pá pum edita. Pá pum relê. Pá pum reedita. Pá pum rerelê. Pá pum rereedita. Até que pá puta que pari! Nunca estarei ponto! E pronto! Me imagine tocando violão. Sempre. Ininterruptamente.

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