Big Belém

25/04/2003 by na categoria Contos tagged as , , , , , with 0 and 0

O sino da catedral toca como em ringue de boxe. Azul contra vermelho. Direita contra esquerda. Certo contra errado. O bem contra o mal. Multidão fazendo aposta. Urrando. Só que os lutadores não escutam nada, pois estão usando tampões nos ouvidos. Lutadores lutam. Socos, socos, loucos…

De repente, o lutador vermelho é golpeado na cabeça e perde os tampões. Ele começa a distinguir, entre os gritos histéricos, uma voz que diz: “Eu te amo, me perdoe!”. Espantado ele percebe que a frase está saindo da boca do seu oponente, junto com os socos. O lutador vermelho começa a desviar dos golpes do lutador azul e repetir uma frase de resposta. O lutador azul não escuta a resposta por causa dos tampões.

O lutador vermelho, devido as luvas, não tem dedos para retirar os tampões dos ouvidos do lutador azul. Então, decide golpeá-lo na cabeça, com toda sua força. Funciona! Os tampões do lutador azul caem e ele escuta a voz do lutador vermelho: “Eu também te amo, me perdoe”.

Os dois lutadores param de lutar. Embora a multidão continue gritando, dentro deles faz silêncio. Vagarosamente o punho dos lutadores vão se abrindo, seus corpos vão se aproximando e eles se abraçam. Todas as pessoas se aproximam e se juntam aquele abraço, atraídos por uma força estranha. Eu, você, pessoas de outras cidades, outros países, outros planetas, outras dimensões. Todos juntos em um big-bang de marcha ré.

E o sino da catedral toca como em noite de natal.

Bhagavad grita
Bipoema
© 2018 · Marcelo Ferrari