Baile de máscaras

25/04/2003 by in category Crônicas, Vídeos tagged as , , with 0 and 0

O homem com máscara de empresário sai pela rua com os vidros do carro fechados. Seu sistema imunológico metaboliza títulos em ordem alfabética. A mão com máscara de coitada bate na janela, mas o chofer com máscara de fiel diz que hoje não.

O farol abre.

Na esquina, o homem com máscara de síndico conversa com a senhora com máscara de velha. Ela recita seu texto chorosa e tranquilamente, enquanto o homem com máscara de síndico balança a cabeça sem talento algum.

Na farmácia, o homem com máscara de farmacêutico atende o cliente com máscara de doente. O cliente se irrita com o preço do calmante, atravessa a rua e vai comprar cigarros na padaria do senhor que não queria fazer o papel de padeiro. Lá, muitos mascarados passam em rodízio; alguns por costume, outros por vício.

Na hora do almoço, entra em cena o rapaz com máscara de garçom. Seu papel é servir o pernil com máscara de saboroso ao homem casado com a mulher com máscara de moderna. Seus filhos, adolescentes, usam máscaras de quem não tem máscara.

As luzes vão caindo pela ribalta. Os mascarados disfarçam as curvas indesejáveis, retocam a idade com massa cosmética, e saem pelas sobras da noite, peregrinando de bar em bar, comprando gargalhadas com gotas de álcool. Crentes de que são autênticos, chegam ao clímax de quatro, inventando significados enciclopédicos para palavra “amor”. Depois engolem as páginas junto com comprimidos.

Do outro lado do balcão, alguém revela a verdade absoluta num longo arroto. De tão distorcido, soa natural. O som se propaga pelo salão-bar-de-beleza feito telefone-sem-fio, ampliando-se copo a copo.

Por fim, o baile alcança seu limite. Não há mais como suportar a pressão de viver pisando em ovos. O esgotamento chega aos pés das cinderelas e príncipes que voltam pelas ruas tentando arrancar o que já virou pele.

Alguns desfalecem pelo caminho e resolvem dormir para sempre nas praças. Outros, persistentes, chegam até suas casas e, de pijamas, sonham como seria bom se pudessem dormir pelados.

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Espalhe a palavra!

Marcelo Ferrari


Nasci ontem. Quando fiz dez anos, completei dezoito. Tenho um chinelo azul com alça vermelha que não serve para poesia. Escrevo o que a inspiração põe e a expiração tira. Não uso heterônimos, sou usado por eles. Só sei ser sendo, dançar dançando, escrever escrevendo e ferrari ferrariando. Minha literatura não é pá pum e pronto! É pá pum escreve. Pá pum lê. Pá pum edita. Pá pum relê. Pá pum reedita. Pá pum rerelê. Pá pum rereedita. Até que pá puta que pari! Nunca estarei ponto! E pronto! Me imagine tocando violão. Sempre. Ininterruptamente.

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