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Adão no catecismo

26/04/2003 by in category Crônicas, Vídeos tagged as , , with 0 and 0

Não lembro perfeitamente como a professora do catecismo explicou, mas era algo como visão de raio-x, onde deus via até através das paredes. “Nossa! Mas ele vê tudo, professora?” A gente perguntava. “Sim, ele vê tudo”, ela respondia. “Mas ele vê tudo, tudo, tudo, tudo mesmo?” Insistíamos. “Tudo, tudo, tudo”, ela afirmava catecismicamente. Era duro aceitar aquilo tudo. Não por ser ilógico. Lógica de criança é diferente de lógica de adulto. A dificuldade vinha da ineficiência das folhas de parreira. Se deus via tudo, então, deus via tudo, entende o problema?

A onipresença era mais simples de entender e aceitar. Deus era a massinha de modelar com a qual todas as coisas eram feitas: estrelas, cachorros, cadeiras e tudo mais. A onipotência também era simples e não incomodava. Deus era o que dava vida a todas as coisas feitas de massinha de modelar. Nosso problema era com a onisciência.

Vez ou outra a pergunta ressuscitava. “Mas deus vê tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo mesmo, professora?” Mal sabíamos nós, mas estávamos vivendo o mesmo drama de Adão. Queríamos pecar, pecados pequenos, coisas de criança como roubar frutas no pomar do vizinho, olhar meninas pela fechadura do banheiro. Mas ainda assim, não queríamos que deus ficasse sabendo. Era o replay do pecado original. A gente aprende essas coisas infantis antes da primeira comunhão e nem se dá conta da comunhão que esqueceu.

Açúcar e sal
Admita
© 2017 · Marcelo Ferrari